Tem coisa na vida que é inevitável. A segunda-feira, por exemplo. A fila mais lenta do supermercado ser justamente a que você escolheu. O celular tocar quando suas mãos estão ocupadas. A tampa do pote desaparecer misteriosamente dentro da própria casa. E, em algum momento da vida, uma mulher decidir que precisa de uma planta.
Ela sempre vai dizer que não pretende fazer jardim nenhum. Deus nos livre de exageros. É só uma plantinha.
Pequenas, discretas e quase tímidas, elas vão chegando. Um vasinho no canto da janela, desses que mal pedem espaço. Depois vem outra, porque a primeira “estava muito sozinha”. Em seguida aparece uma para o corredor, outra para a cozinha. Daqui a pouco surge uma samambaia pendurada perto da varanda. Mais tarde, alguma espécie de nome impronunciável que, segundo ela, “gosta de luz indireta”.
Existe uma regra não escrita: planta parece chamar planta.
Quando você percebe, já é tarde.
Tem planta no banheiro, em cima da geladeira, pendurada no teto e espalhada pela varanda. Há folhas avançando sobre os móveis, vasos ocupando o chão e um regador que ganhou lugar fixo na casa.
O caso começa a ficar grave quando surgem vasos onde, até pouco tempo atrás, havia móveis.
A poltrona desaparece. Depois some uma mesinha. Um canto da sala é
oficialmente cedido à vegetação.
Mas a explicação continua a mesma:
— É só mais uma.
E mudança de endereço não resolve.
A mulher pode sair de uma casa com quintal e ir morar num apartamento no décimo andar. Alguns móveis não cabem. A mesa é vendida, o armário fica para trás, uma cadeira vai parar na casa de algum parente.
Mas as plantas vão.
Vão todas.
Uma no banco de trás, outra no colo, duas espremidas no porta-malas, uma maior atravessada como passageira sem cinto. Há folhas saindo pela janela, terra no assoalho e alguém tentando enxergar pelo retrovisor entre uma costela-de-adão e uma espada-de-são-jorge.
Na mudança, pode faltar espaço para a cômoda.
Para a samambaia, dá-se um jeito.
Chegando ao apartamento, começa a procura pelo sol.
— Aqui pega luz de manhã.
Pronto.
Nasceu um jardim.
Há também aquelas que não se contentam com a própria casa. Cuidam do canteiro da calçada, da árvore em frente ao portão, das flores da igreja e, se alguém der bobeira, adotam a praça inteira.
Confesso que algumas plantas são mais fáceis de compreender.
Um pezinho de boldo, por exemplo. A gente percebe imediatamente a utilidade. Depois de certos almoços, chega até a respeitá-lo mais.
Hortelã também. Alecrim. Erva-cidreira.
Nesses casos existe uma espécie de acordo entre o homem e a natureza: eu lhe dou água, você me dá um chá.
Com as frutíferas, então, ninguém reclama.
Toda família parece ter conhecido uma avó cujo quintal produzia mais que algumas propriedades rurais. Havia goiaba, manga, banana, limão, maracujá e mais alguma coisa que aparecia conforme a estação. Bastava uma árvore carregar para começar um pequeno movimento migratório em direção à casa.
Chegavam os netos.
Depois os amigos dos netos.
Depois o vizinho que vinha apenas conversar, mas curiosamente levava uma sacola.
As frutas nunca pareciam acabar. A avó distribuía mangas pelo portão, separava goiabas para alguém, mandava bananas para outro e ainda reclamava que estavam estragando no pé.
Por tudo isso, tenho simpatia por essas casas tomadas por plantas.
Acho bonita essa necessidade de cercar-se de coisas vivas.
As árvores são derrubadas para levantar um prédio. A cidade vai crescendo em concreto, vidro e estacionamento.
E então alguém coloca uma samambaia num canto.
Uma jiboia perto da janela.
Um vaso de manjericão na cozinha.
Uma flor pequena sobre a mesa.
Penso que isso não é apenas decoração.
Há algo de resistência nisso. Enquanto a cidade insiste no cinza, alguém ainda reserva um pedaço da casa para o verde.
Existe algo profundo nisso tudo.
Deus nos fez para um jardim.
Antes das cidades, dos prédios, do asfalto e das avenidas, praças e garagens subterrâneas, a primeira casa do homem tinha árvores, rios, frutos e sombra.
Por isso, a gente nunca aprendeu a viver inteiramente longe do verde.
Podemos subir vinte andares, fechar a varanda com vidro, trocar o quintal por uma vaga de garagem e passar o dia cercados de telas. Ainda assim, alguém encontra um canto para um vaso.
E cuida dele.
Rega. Muda de lugar para pegar sol. Tira uma folha seca. Alegra-se com um broto novo, presenciando uma coisa pequena e misteriosa.
Fomos criados para a comunhão: com Deus, com as pessoas e com a criação que nos cerca.
O pecado rompeu essa harmonia. Desde então, carregamos a estranha vontade de reconstruir pontes.
Às vezes uma delas cabe num vaso.
Quem sabe seja apenas gosto por plantas.
Ou talvez ainda carreguemos conosco uma antiga saudade do Éden.
