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A escola precisa acabar

Isaías Lobão
A escola precisa acabar

Todo ano é a mesma coisa.

Os alunos novatos chegam mais quietos. Observam os corredores, procuram a sala certa, tentam descobrir onde sentar e, principalmente, com quem sentar.

Mesmo aqueles que vieram da mesma escola parecem falar mais baixo nos primeiros dias. Ainda estão medindo o ambiente e uns aos outros.

Os veteranos chegam de outro jeito. Já conhecem o caminho, os professores e os melhores lugares para ficar no intervalo. Voltam animados, querendo rever os amigos, conversar e colocar as novidades em dia.

E sempre há novidades.

Muita coisa acontece durante as férias. Alguns viajaram. Outros passaram boa parte delas em casa. Namoros começaram, namoros terminaram. Há quem volte com o cabelo diferente, quem tenha crescido alguns centímetros e quem simplesmente não volte. Mudou de escola, de cidade, de rumo.

Os professores também chegam.

Alguns ainda cansados, com a impressão de que as férias foram curtas demais. Outros voltam cheios de ideias. Leram alguma coisa, assistiram a uma palestra, conversaram com um colega e decidiram que naquele semestre tudo será diferente.

Nem sempre é.

Para quem já caminha há quase trinta anos por esses corredores, algumas cenas começam a se repetir. Mudam os rostos, mudam os nomes, aparecem novas tecnologias, novas palavras e novas exigências. Mas muita coisa continua estranhamente familiar.

Por isso, acho que já posso dizer uma coisa.

A escola precisa acabar.

A docência nunca foi uma tarefa simples. Pelo menos não me lembro de que tenha sido. Há expectativas demais depositadas sobre a escola. Sempre que alguém descobre um problema importante na sociedade, logo surge a ideia de criar uma lei e colocar mais alguma coisa no currículo.

Se o assunto é importante, a escola precisa ensinar.

Se é urgente, precisa ensinar também.

E, entre uma boa intenção e outra, chegam formulários, relatórios, plataformas, reuniões, projetos e burocracias variadas. Coisas que, ironicamente, deveriam ajudar a escola a funcionar, mas muitas vezes acabam tomando justamente o tempo que gostaríamos de passar fazendo aquilo para que viemos até aqui: ensinar.

Por isso, depois de tantos anos, posso dizer com convicção: a escola precisa acabar.

Não apenas por causa dos relatórios, das reuniões ou das novas tarefas que aparecem de tempos em tempos. A escola tem uma característica curiosa, ela nunca está inteiramente pronta.

Ouvi certa vez, numa palestra, uma diretora dizer que uma escola existe por apenas um ano. A frase me soou estranha no início. Depois, entendi exatamente o que ela queria dizer.

O prédio continua ali. Os professores também. As mesas, os quadros, os corredores e, com alguma sorte, até os computadores permanecem. Mas os alunos se matriculam para aquele ano. Frequentam as aulas, ocupam as carteiras, formam suas turmas. Quando dezembro chega, porém, nada garante que todos estarão ali novamente.

Nas escolas particulares isso fica mais evidente. Todo fim de ano existe a rematrícula. A escola precisa, de algum modo, convencer as famílias a voltar. Há planejamento, divulgação, reuniões, metas. O próximo ano letivo precisa ser conquistado.

Nas escolas públicas a sensação é diferente, mas não tanto quanto parece.

Aquela escola também desaparece.

A turma da primeira série daquele ano nunca mais existirá exatamente daquela forma. Alguns alunos mudarão de cidade. Outros de escola. Alguns ficarão para trás. Outros seguirão adiante. Amizades serão desfeitas, novas serão criadas. Até os grupos que pareciam inseparáveis acabam se desfazendo.

No ano seguinte, haverá outra primeira série.

Os mesmos corredores, talvez.

Mas outra escola.

Depois de quase trinta anos vendo esse movimento, confesso que às vezes bate um cansaço.

A gente prepara aulas, aprende nomes, corrige trabalhos, chama atenção, conversa, insiste, tenta outra vez. Quando finalmente começamos a conhecer melhor aquela turma, o calendário começa a avisar que ela está indo embora.

E então tudo recomeça.

Novos nomes.

Novas turmas.

Novos problemas.

Novas plataformas, novos sistemas para lançar notas, preencher relatórios, registrar atividades. Quando finalmente aprendemos a usar um, aparece outro no lugar.

Chega.

Depois de tantos anos, para mim, está claro: a escola precisa acabar.

Há muitos anos escolhi trabalhar, principalmente, com as primeiras séries do ensino médio.

Tenho afinidade com essa fase: História Antiga, História Medieval, Grécia, Alexandre, o Grande, Roma, Império Bizantino, os cavaleiros, os feudos, as cidades que desapareceram e os povos que deixaram marcas muito depois de terem ido embora.

Fico feliz em apresentar esse mundo aos alunos.

Gosto de aproveitar esse começo para fazer uma espécie de quebra-gelo.

Pergunto sobre o futuro. O que vocês querem fazer depois do ensino médio? Pretendem continuar estudando? Já pensaram em alguma profissão? Têm algum sonho?

As respostas costumam vir tímidas. Um diz que ainda não sabe. Outro arrisca o nome de um curso. Alguns sorriem antes de responder, como se falar do futuro diante da turma fosse revelar um segredo. Há também os que simplesmente dão de ombros.

Aos quinze ou dezesseis anos, o futuro ainda parece uma coisa grande demais para caber numa resposta.

Guardo essas respostas sem anotar em lugar nenhum. E, perto do fim do ano, faço as mesmas perguntas outra vez.

As respostas já não são as mesmas.

Eles também não.

Agora falam mais. Alguns mudaram completamente de ideia. O curso que parecia certo no começo do ano já foi trocado por outro. Há quem tenha descoberto uma profissão. Há quem continue sem saber, mas já saiba ao menos o que não quer. Alguns falam com uma convicção que não tinham meses atrás.

E falam alto.

Já não são aqueles alunos quietos dos primeiros dias, medindo palavras e procurando onde sentar. Agora conhecem a escola, conhecem uns aos outros e, de alguma forma, conhecem um pouco mais a si mesmos.

É nessa hora que entendo por que a escola precisa acabar.

Ela termina porque cumpriu o seu papel. Uma boa escola não existe para conservar os alunos dentro dela, mas para prepará-los para o dia em que já não precisarão dela. Ensinar é participar, todos os dias, de um lento ritual de despedida.

Nós os recebemos ainda inseguros, carregando perguntas que às vezes nem sabem formular.

Durante algum tempo caminhamos ao lado deles. Ensinamos o que sabemos, insistimos no que julgamos importante, corrigimos provas, chamamos atenção, contamos histórias de povos que já desapareceram e tentamos mostrar que o mundo é muito maior do que aquele corredor, aquela sala, aquele ano.

No fundo, porém, estamos fazendo algo mais simples e mais difícil: ajudando-os a encontrar uma porta.

Durante algum tempo, caminhamos com eles pelos mesmos corredores. Fazemos perguntas, corrigimos erros, contamos histórias, insistimos quando eles querem desistir. Às vezes pensamos que estamos apenas ensinando datas, conceitos, fórmulas e palavras. Mas, sem perceber, estamos ajudando alguém a ganhar coragem para atravessar uma porta.

E chega o dia em que eles atravessam.

Depois, vão embora.

Não porque a escola fracassou.

Mas porque cumpriu sua tarefa.

Para mim, essa uma das estranhas belezas de ensinar. Trabalhamos para que, um dia, nossos alunos já não precisem de nós.

Costumo brincar com eles dizendo que o professor é reprovado todos os anos.

Eles passam de série, seguem adiante, mudam de sala, de disciplina, de professores. Nós não. Ficamos com as mesmas matérias, os mesmos livros, os mesmos corredores.

Eles avançam.

Nós permanecemos.

Alguns seguirão para a universidade. Outros começarão a trabalhar. Alguns mudarão de cidade. Outros ainda levarão algum tempo para descobrir o próprio caminho. Nem todos saberão para onde estão indo. Nós também não sabíamos quando tínhamos a idade deles.

Mas irão.

E nós ficamos.

Ficamos com as salas mais silenciosas, algumas lembranças, nomes que ainda reconhecemos quando aparecem anos depois numa rede social e a sensação de que aquele ano passou depressa demais.

Fechamos os diários. Guardamos os materiais. Reclamamos do cansaço. Prometemos que no próximo ano faremos algumas coisas diferentes.

Então as férias passam.

E, numa manhã qualquer, os corredores voltam a ter barulho.

Chegam novos alunos.

Mais quietos.

Procurando a sala certa, escolhendo onde sentar, olhando uns para os outros sem saber ainda quem serão seus amigos, nem que histórias carregarão dali.

Eu entro na sala.

Diante de mim estão rostos que ainda não conheço. Alguns desviam os olhos. Outros sorriem sem muita certeza. Há quem procure um lugar no fundo, como se a última carteira pudesse oferecer algum tipo de proteção. Eles ainda não sabem os nomes uns dos outros, ainda não sabem quais amizades nascerão ali, quais dificuldades enfrentarão, quais professores aprenderão a admirar — e quais terão de suportar.

Também não sabem que aquele ano, que agora parece tão comprido, passará depressa.

Olho para eles e faço a pergunta que venho repetindo há tantos anos:

— O que vocês querem fazer no futuro?

Por alguns segundos, a sala fica em silêncio.

Um diz que ainda não sabe. Outro fala o nome de uma profissão, pedindo licença para sonhar com ela. Alguém sorri. Outro dá de ombros. Há sonhos que já têm nome e outros que ainda estão procurando palavras.

E está tudo bem.

Durante alguns meses, caminharemos juntos.

Falaremos de Roma, de reis, de guerras, de revoluções, de homens e mulheres que viveram há séculos. Farei perguntas. Eles farão outras. Algumas terão resposta. Outras permanecerão abertas. Haverá provas, trabalhos, atrasos, conversas, risadas, impaciências e dias em que todos desejarão estar em qualquer outro lugar.

Até que, quase sem percebermos, dezembro chegará outra vez.

Então farei a mesma pergunta.

E as respostas serão diferentes.

Não necessariamente porque todos terão descoberto o que querem da vida. Mas porque já não serão os mesmos que entraram naquela sala meses antes.

Eles seguirão.

Eu ficarei.

compreendo que não há tristeza nisso.

É para isso que a escola existe.

Para receber quem chega sem saber muito bem o caminho, caminhar ao seu lado durante algum tempo e, quando chegar a hora, abrir o portão.

Eles vão.

Nós ficamos.

Até que outros cheguem.

A escola começa de novo.

Porque, para recomeçar, ela precisa primeiro acabar.

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