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A história da nossa vida

Isaías Lobão
A história da nossa vida

Há uma história que se repete em cada geração, em cada povo, em cada casa, em cada coração. Não é a história dos reis, nem dos impérios, nem das guerras que os homens registram em seus livros.

É uma história mais profunda, mais antiga e mais decisiva. É a história de nossa vida diante de Deus.

Muitos conhecem a própria idade, a cidade onde nasceram, os nomes de seus pais, as alegrias e tristezas que marcaram seus anos. Mas poucos compreendem a verdadeira narrativa da existência humana.

Poucos conseguem responder, com clareza e sobriedade, às grandes perguntas: Quem somos? O que aconteceu conosco? Há esperança para o homem caído? Como pode alguém ser salvo?

A Palavra de Deus não nos deixa em trevas. Ela abre diante de nós o drama real da humanidade.

E essa história pode ser resumida em quatro grandes verdades: fomos criados à imagem de Deus, caímos em pecado e nos tornamos sujeitos à morte, fomos redimidos pelo sangue de Jesus Cristo, e precisamos nascer de novo pela Palavra e pelo Espírito.

1. Criados à imagem de Deus

A Escritura diz: “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn. 1:27).

Aqui está a dignidade original do homem. O ser humano não é um acidente cósmico, nem poeira organizada por acaso, nem apenas um animal mais sofisticado.

O homem foi criado por Deus e traz, em sua constituição, a marca de seu Criador. Isso significa que a vida humana possui valor, propósito e responsabilidade.

Ser criado à imagem de Deus não quer dizer que o homem seja divino, mas que foi feito para refletir, de modo criado e finito, algo da racionalidade, moralidade, espiritualidade e domínio que pertencem ao Senhor.

O homem foi feito para conhecer a Deus, amá-lo, obedecê-lo e glorificá-lo. Foi criado em retidão. Saiu das mãos do Criador sem mancha, sem culpa, sem corrupção.

Que contraste entre o homem como foi feito e o homem como agora se encontra. Houve um tempo em que não havia lágrimas, nem túmulos, nem culpa, nem medo.

Adão, no estado de inocência, não fugia da presença de Deus. A comunhão era doce. A consciência era limpa. A criação estava em harmonia sob o governo do Altíssimo.

Essa verdade deve humilhar o orgulhoso e elevar o abatido. Humilha o orgulhoso porque ele não é autônomo, não se fez a si mesmo, não pertence a si mesmo. Ele é criatura. E eleva o abatido porque sua vida não é desprezível.

Mesmo arruinado pelo pecado, o homem ainda carrega uma dignidade derivada de sua origem. Há ruínas de grandeza no ser humano, vestígios de uma glória perdida, ecos de um paraíso que foi abandonado.

Toda falsa religião e toda falsa filosofia erram logo aqui. Algumas rebaixam o homem a mero animal. Outras o exaltam como se fosse seu próprio deus.

A Bíblia faz justiça à verdade. Ela nos diz que o homem foi criado nobre, mas não é soberano. Foi criado elevado, mas não é independente. É imagem, não original. Reflexo, não fonte. Criatura, não Criador.

2. Entregues à morte por causa do pecado

Mas a história não termina no jardim. A bela manhã da criação foi coberta pelas nuvens espessas da queda. O pecado entrou no mundo, e com ele a morte.

O apóstolo Paulo declara: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm. 5:12).

Aqui está a tragédia que explica todas as tragédias. O mundo não está quebrado por acaso. A dor não é uma ilusão. A morte não é natural no sentido moral do termo. Ela é intrusa.

A morte entrou como salário do pecado. O cemitério é testemunha silenciosa de Gênesis 3. Cada enfermidade, cada lágrima, cada suspiro de angústia, cada corpo que envelhece e desfalece proclama que o homem caiu.

A teologia reformada sempre tratou essa verdade com seriedade santa. Em Adão, nosso representante pactual, todos pecaram. Sua culpa foi imputada à sua posteridade, e sua corrupção se estendeu a toda a raça humana.

Não somos pecadores apenas porque pecamos em atos; pecamos porque somos pecadores em natureza. O coração humano, desde a queda, não é moralmente neutro. Ele é inclinado ao mal. O entendimento foi obscurecido, a vontade escravizada, os afetos desordenados.

O homem natural não é um enfermo leve que precisa apenas de algum tratamento religioso. Ele é um morto em delitos e pecados. Não está apenas ferido, mas arruinado. Não está apenas distante, mas alienado de Deus. Não precisa de mero aperfeiçoamento moral. Precisa de redenção, perdão e nova vida.

Oh, como o homem resiste a essa doutrina. Ele aceita que tem falhas, mas rejeita que está perdido. Confessa fraquezas, mas não quer admitir sua rebelião. Tolera ser chamado de imperfeito, mas se ofende ao ser chamado de depravado.

Contudo, o diagnóstico divino não pode ser alterado por nossa opinião. O pecado não é aquilo que o homem moderno acha que é. Pecado é transgressão da lei de Deus. Pecado é rebelião contra o santo governo do Senhor. Pecado é recusa prática de que Deus seja Deus.

E o resultado é a morte. Morte espiritual, porque o homem se encontra separado da vida de Deus. Morte física, porque o corpo retorna ao pó. E, para os que permanecem fora de Cristo, morte eterna, que é a justa condenação sob a ira santa de Deus.

Se alguém deseja compreender a gravidade do pecado, olhe para uma sepultura. Se deseja compreender ainda mais profundamente, olhe para a cruz. Nada revela tanto a malignidade do pecado quanto o fato de que o Filho de Deus precisou sofrer e morrer para expiá-lo.

3. Remidos pelo sangue de Jesus Cristo

Mas bendito seja Deus, porque a história de nossa vida não termina na ruína. Onde o pecado abundou, superabundou a graça. Onde o homem se perdeu, Deus manifestou seu eterno propósito de salvação em Cristo.

Paulo escreve: “No qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça” (Ef. 1:7).

Eis o coração do evangelho. O homem não podia subir até Deus, então Deus veio ao homem. O pecador não podia oferecer satisfação à justiça divina, então o próprio Deus providenciou o Cordeiro. O culpado não podia pagar sua dívida, então Cristo pagou tudo com seu precioso sangue.

Redenção é linguagem de resgate. Aponta para libertação mediante pagamento. O homem estava cativo, condenado e sem recursos. Mas Cristo, o Mediador da aliança, assumiu a natureza humana, cumpriu perfeitamente a lei que havíamos quebrado, e na cruz ofereceu-se como sacrifício substitutivo em favor de seu povo.

Seu sangue não foi derramado como exemplo meramente comovente, nem como gesto simbólico de amor sem eficácia objetiva. O sangue de Cristo expia. Satisfaz. Purifica. Redime.

A teologia reformada insiste, com razão, que a cruz não tornou a salvação apenas possível. Ela garantiu a salvação dos eleitos de Deus. Nosso Senhor não morreu para deixar a obra pela metade, dependendo da vontade caída do homem para completá-la. Ele morreu para salvar. E salva, de fato, todos aqueles que o Pai lhe deu.

Na cruz, justiça e misericórdia se beijaram. Deus não ignorou o pecado. Deus o julgou em seu Filho. O castigo que nos traz a paz estava sobre ele. O Justo sofreu pelos injustos. O Pastor entregou a vida por suas ovelhas. O Santo foi tratado como pecado, para que pecadores fossem tratados como justos diante de Deus.

Que consolo há nisso para a alma aflita. O perdão não repousa em sentimentos, em méritos pessoais, em penitências humanas ou em obras religiosas. Repousa no sangue de Cristo.

A paz da consciência não nasce da contemplação do próprio coração, que é inconstante e enganoso, mas da contemplação do Redentor crucificado. O fundamento da salvação não está na intensidade da fé, mas no objeto da fé. E o objeto da fé é Cristo, e este crucificado.

Pecador, não olhe para si como se pudesse encontrar em si mesmo a cura de sua alma. Sua esperança não está em remendar velhas vestes. Está em receber a justiça de Outro. Não está em limpar com as próprias mãos a culpa do coração. Está em ser lavado no sangue do Cordeiro.

4. Nascidos de novo pela Palavra e pelo Espírito

Mas como essa redenção alcança o pecador? Como alguém morto em pecados vem a participar da vida de Cristo? Nosso Senhor responde: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus... quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus” (Jo. 3:3,5).

Aqui está a necessidade absoluta da regeneração. Não basta ser religioso. Não basta admirar Jesus. Não basta frequentar a igreja. Não basta ter boa moral diante dos homens. É necessário nascer de novo.

O novo nascimento não é uma reforma externa, mas uma transformação interior operada soberanamente por Deus. Não é uma pintura sobre madeira apodrecida. Não é um verniz espiritual sobre um coração carnal. É nova criação. É mudança de natureza. É obra do Espírito Santo aplicando eficazmente ao coração eleito os méritos de Cristo, por meio da Palavra.

Aquele que nasceu de novo recebe novos olhos para ver a beleza de Cristo, novos ouvidos para ouvir a voz do Bom Pastor, novo coração para amar a santidade, nova disposição para crer e obedecer. A regeneração precede e produz a fé salvadora. O homem não nasce de novo porque creu por si mesmo. Ele crê porque o Espírito lhe deu vida.

A Palavra de Deus é o instrumento dessa obra. O evangelho pregado é a semente incorruptível. O Espírito sopra onde quer, e ao soprar, ilumina a mente, convence do pecado, quebra o coração, inclina a vontade e atrai o pecador a Cristo. Tudo isso é graça, do princípio ao fim.

Essa doutrina derruba o orgulho humano. Se o novo nascimento é necessário, então não podemos nos salvar. Se ele é obra do Espírito, então não podemos produzi-lo por técnicas, manipulações ou decisões autônomas. A salvação pertence ao Senhor. Ele ressuscita mortos. Ele chama as coisas que não são como se já fossem. Ele tira o coração de pedra e dá coração de carne.

Mas essa mesma doutrina consola profundamente. Se a salvação dependesse, em última instância, da força do homem, ninguém seria salvo. Porém, porque depende da graça soberana de Deus, há esperança até para o mais endurecido pecador.

O braço do Senhor não está encolhido. O Espírito ainda vivifica. A Palavra ainda é poderosa. Cristo ainda salva perfeitamente os que por ele se chegam a Deus.

Conclusão: Em que parte dessa história você está?

A história de nossa vida, portanto, é esta. Fomos criados à imagem de Deus. Caímos em Adão e nos tornamos sujeitos à morte. Fomos redimidos unicamente pelo sangue de Cristo. E devemos nascer de novo pela Palavra e pelo Espírito.

Essa não é apenas uma doutrina para ser admirada. É uma verdade para ser recebida. Não basta conhecê-la intelectualmente. É preciso ser alcançado por ela. A grande pergunta não é apenas se você concorda com essas proposições, mas se já foi unido a Cristo pela fé.

Você sabe o que é ter a consciência acusando-o por causa do pecado? Então olhe para o sangue da redenção. Você sente o peso da morte, da vaidade da vida, da fragilidade da existência? Então olhe para o Cristo ressurreto. Você percebe em si mesmo a incapacidade de mudar o próprio coração? Então clame pelo Espírito de Deus, que faz novas todas as coisas.

Não despreze o evangelho. Não endureça o coração. Não tente escrever sozinho um final feliz para uma história que só Deus pode redimir. Venha a Cristo. Nele, a imagem desfigurada começa a ser restaurada. Nele, a morte perde seu aguilhão. Nele, o pecado é perdoado. Nele, a alma nasce para a vida eterna.

Fora de Cristo, a história do homem é tragédia. Em Cristo, a história do pecador torna-se redenção. E no grande dia, quando o povo de Deus estiver completo diante do trono, a narrativa alcançará seu glorioso desfecho.

Então veremos, sem véu e sem lágrimas, que a graça escreveu melhor a nossa história do que jamais poderíamos imaginar.

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