A pamonha tem um defeito grave para os nossos tempos, a demora.
É preciso descascar o milho, limpar as espigas, ralar, temperar, preparar as palhas, encher os embrulhos, amarrá-los, cozinhar e, por fim, esperar.
Foi justamente por isso que ela se tornou uma das minhas comidas preferidas. Não apenas pelo sabor, mas também pela demora.
Daí me ocorreu uma coisa. Talvez essa lentidão explique porque “pamonha” se transformou em apelido para gente devagar, sem iniciativa ou que custa a se decidir.
— Deixa de ser pamonha!
— Seu marido não decide nada. É um pamonha.
— Fulano ficou ali, parado, sem saber o que fazer. Um pamonha.
Confesso que sempre achei uma injustiça. A pamonha não é lerda. Ela apenas não tem pressa. E esta é justamente sua maior qualidade.
Não é comida para gente apressada. Começa-se de manhã para comer à tarde.
Nós nos tornamos especialistas em adiar encontros. “Uma hora dessas precisamos marcar alguma coisa”. “Quando der, eu te ligo”. “Agora estou ocupado, mas depois a gente conversa”.
O curioso é que dizemos essas frases com sinceridade. Queremos mesmo encontrar aquela pessoa. Queremos conversar. Queremos visitar. Só não pode ser hoje. E o problema é que o depois tem um péssimo hábito de não chegar.
Quando finalmente encontramos tempo, às vezes o amigo mudou de cidade. Em outras, continua no mesmo lugar, mas a vida o levou para tão longe, que no fim, dá quase no mesmo.
Há situações mais tristes. Ficamos sabendo que alguém adoeceu. “Preciso visitá-lo”. Porém, os dias passam. A pessoa melhora e nós perdemos a oportunidade de estar perto quando ela precisava. Às vezes, não melhora. E então descobrimos, tarde demais, que algumas visitas não podem ser remarcadas.
Há algum tempo, assisti a um trecho de uma palestra de Mario Sergio Cortella. Ele falava sobre o enfraquecimento dos relacionamentos. Algo cada vez mais comum neste nosso mundo apressado, em que estamos cercados de gente e, ainda assim, tantas vezes distantes uns dos outros.
Foi nesse contexto que ele cunhou uma palavra curiosa: pamonhalizar. A ideia é simples e por isso, tão boa. Ele disse que precisamos pamonhalizar nossas relações. Criar mais ocasiões para estar juntos, conversar sem pressa, dividir tarefas e permanecer perto uns dos outros por tempo suficiente para que a vida realmente aconteça.
Hoje é muito fácil comer pamonha. Você compra pronta. Há pamonharias, feiras, vendedores e até aquele carro que passa pela rua anunciando pelo alto-falante uma felicidade feita de milho.
Antigamente, porém, comer a pamonha era só fim da história. Por isso minhas melhores lembranças de pamonha não tenham propriamente gosto. Têm vozes.
Era preciso conseguir o milho. Depois vinha uma montanha de espigas esperando pela família. Aí está o segredo. Nunca ouvi falar de alguém que tenha resolvido fazer duas pamonhas. Talvez exista essa pessoa, mas desconfio dela. A pamonha desconhece pequenas proporções; quando começa, já pensa em bacia cheia, caldeirão grande e gente bastante para dar conta do serviço. Talvez porque, no fundo, tenha sido feita mesmo para muita gente.
Uns retiravam as palhas; outros limpavam o milho. Depois vinha o ralador. Hoje ele é automático, mas antigamente era na mão. Ás vezes, ralava-se também um pouco do dedo. Era considerado um tempero bastante tradicional.
A massa era temperada. As palhas maiores eram separadas e dobradas para formar pequenos recipientes. Vinha o queijo, às vezes linguiça, carne ou algum ingrediente que determinada família jurava ser indispensável para uma pamonha verdadeira.
Lembro-me dos adultos conversando enquanto trabalhavam. Das crianças correndo de um lado para outro. Dos parentes chegando. De alguém reclamando que faltava queijo. De outro perguntando quando ficaria pronto.
As crianças geralmente ficavam encarregadas de retirar os cabelos das espigas, embora essa fosse apenas a parte oficial da função.
Na prática, brincavam enquanto ajudavam — ou ajudavam enquanto brincavam; naquela idade, não havia muita diferença. Entre uma espiga e outra, corriam, riam, desapareciam por alguns minutos, voltavam quando alguém chamava e, no fim da manhã, depois de duas ou três contribuições realmente úteis, recebiam crédito por uma manhã inteira de trabalho.
Não estávamos reunidos simplesmente porque havia pamonha para fazer. Era o contrário. Fazíamos pamonha porque aquilo nos dava uma boa desculpa para permanecer juntos durante uma tarde inteira.
E, naturalmente, surgia a discussão sobre a pamonha verdadeira: doce ou salgada, com queijo ou sem queijo, com linguiça, carne ou apenas a massa. Toda família possui assuntos irreconciliáveis.
Não inventamos essa tradição. A pamonha têm uma história antiga. O nome vem do tupi “pa’munã” e significa “pegajoso”. O preparo do milho envolvido em folhas pertence à herança culinária dos povos indígenas das Américas.
Muito antes de haver Goiás, Tocantins ou Brasil, o milho já alimentava povos deste continente. Com o passar dos séculos, a receita recebeu ingredientes, costumes e sotaques diferentes. Há parentes dela em vários lugares da América Latina.
Tenho outra lembrança, agora ligada à igreja. Nossa comunidade em Anápolis precisava construir uma nova nave para o templo. Dinheiro não havia muito, mas havia fé e disposição.
Resolvemos vender pamonhas.
Antes da venda, porém, vinha a liturgia que já descrevi: milho, palha, ralador, gente demais na cozinha e um grande caldeirão presidindo a cerimônia.
Quando tudo ficou pronto, começava uma nova divisão de tarefas. Era hora de sair pelas ruas próximas, bater de porta em porta e oferecer as pamonhas.
Algumas pessoas já nos conheciam; outras passaram a nos conhecer por causa daquela campanha. Explicávamos o projeto, conversávamos um pouco, ouvíamos uma história aqui, outra ali, e quase sempre alguém comprava duas, quatro, seis pamonhas antes de nos despedirmos e seguirmos para a próxima casa.
No fim, conseguimos levantar os recursos, e a nova nave foi construída. Durante muito tempo pensei que esse tivesse sido o principal resultado de todo aquele esforço. Hoje, porém, olhando para trás, percebo que enquanto levantávamos paredes também fortalecíamos vínculos, dentro e fora da igreja. Sem perceber, pamonhalizamos a vizinhança.
Os primeiros cristãos compreenderam isso melhor do que nós. Quando Lucas descreve a igreja em Jerusalém, no livro de Atos, ele diz que os discípulos perseveravam no ensino dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações. Pouco depois, acrescenta uma cena muito simples. Eles se reuniam de casa em casa, partilhavam o alimento e comiam juntos com alegria.
Sempre achei bonito que uma descrição tão grandiosa do nascimento da Igreja reserve espaço para algo tão comum quanto uma refeição. Mas talvez não haja nada de estranho nisso. A fé cristã nunca foi feita apenas de grandes assembleias, discursos memoráveis ou momentos extraordinários; ela também acontece ao redor da mesa, entre pratos, conversas e gente que aprende a repartir a vida.
Jesus fez isso muitas vezes. Comeu com amigos, aceitou convites, sentou-se à mesa com gente malvista, repartiu pão, ofereceu peixe e transformou refeições comuns em lugares de acolhimento, ensino e graça. E, ao final, deixou à sua Igreja justamente uma ceia.
Deus nos ensinando algo sobre nós que insistimos em esquecer. Quando as pessoas se sentam à mesa com frequência suficiente, começam não apenas a repartir o alimento, mas também a carregar um pouco da vida umas das outras.
Meus tios, que moram nos Estados Unidos, fazem pamonha por lá. Imagino aquele monte de milho aparecendo sobre uma mesa americana, a família chegando aos poucos, os amigos sendo chamados e talvez algum vizinho olhando para toda aquela movimentação sem entender por que é necessária tanta gente para preparar uma comida que, afinal, poderia simplesmente ser comprada pronta.
Então alguém lhe entrega uma espiga, ensina a retirar a palha, pede que limpe outra, segure alguma coisa, experimente a massa ou coloque o queijo. Quando percebe, ele já deixou de ser apenas o vizinho curioso e está conversando com alguém que nem conhecia uma hora antes.
Meus tios estão, de algum modo, pamonhalizando a América.
Precisamos fazer o mesmo com a nossa vida, e nem precisa haver milho. Pode ser um café sem pressa, um almoço de domingo, uma conversa na calçada, uma mesa depois do culto ou uma visita feita simplesmente porque sentimos vontade de ver alguém.
Há coisas que só acontecem quando lhes damos tempo. A amizade é uma delas; a comunhão também.
Nós achávamos que estávamos fazendo pamonha. Deus, em sua bondade, estava nos dando lembranças, fortalecendo afetos e ensinando que estar junto também é uma forma de graça.
No fim, é isso que a pamonha faz melhor.
Além de levar queijo, é claro.
