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Até as palavras chegarem

Isaías Lobão
Até as palavras chegarem

Eu gostava de escrever cartas.

Era um ritual gostoso. Escolher o papel, uma boa caneta, sentar-se à mesa e pensar no que escrever.

Antes da primeira frase, a gente ainda ficava alguns segundos olhando para o papel, esperando as palavras chegarem.

Naquele tempo, papel de carta tinha seu encanto e era muito apreciado. Muitas meninas faziam coleção. Havia folhas coloridas, com flores, bichinhos, desenhos e bordas enfeitadas. Algumas eram bonitas demais para serem usadas. E, em vez de mandar a carta, elas guardavam o papel.

Curiosamente, algumas ainda têm essas coleções até hoje. Depois de tantos anos, continuam guardadas com carinho.

Durante milênios, foi assim que as pessoas conversaram com quem estava longe. E, às vezes, nem tão longe assim. Reis mandavam cartas a governadores, comerciantes escreviam a seus sócios, soldados às famílias, apaixonados uns aos outros.

Desde cedo, os grandes impérios entenderam que governar dependia da comunicação. Persas e romanos organizaram serviços de mensageiros capazes de levar ordens e notícias por enormes distâncias. Os persas mantinham postos ao longo das estradas, onde homens e cavalos eram substituídos. A carta podia estar cansada; o cavalo, não. Mal chegava a um posto, já seguia viagem com outro mensageiro.

No mundo greco-romano, as cartas costumavam começar de um jeito bem definido: quem escrevia se apresentava, dizia a quem se dirigia e fazia uma saudação. É o que encontramos nas epístolas do Novo Testamento. Aliás, epístola é apenas um nome mais respeitável para carta.

Nós nos acostumamos a outra fórmula: lugar e data no alto da página. “Palmas, 12 de maio de...” ou “Brasília, 3 de setembro de...”. Era uma maneira de dizer não apenas quem escrevia, mas de onde e quando aquela pessoa parara a vida para pensar em nós.

Muitas cartas sobreviveram a quem as escreveu. E, décadas ou séculos depois, ainda encontram leitores.

Há cartas de amor em que alguém derramou no papel uma coragem que jamais teria diante da pessoa amada. Cartas de escritores que começaram como conversa particular e terminaram publicadas em livros. Cartas de soldados escritas às pressas antes de uma batalha. Cartas de presos contando os dias, fazendo promessas, pedindo perdão. E, em alguma velha história, certamente existe também a carta que revela onde foi enterrado o tesouro. Cartas sempre combinaram muito bem com tesouros.

Mas as cartas comuns eram outras.

Falavam da chuva que finalmente chegou, da tia que adoeceu, do menino que cresceu, da vizinha que se casou e do preço das coisas. A saudade precisava caber dentro de um envelope.

Mas nem toda carta começava com saudade. Algumas começavam simplesmente com curiosidade.

Não faz tanto tempo assim, embora às vezes pareça coisa do século passado. As revistas impressas publicavam pequenas seções em que os leitores se apresentavam. Nome, o endereço e algumas informações pessoais para quem quisesse trocar correspondência.

Hoje isso parece uma imprudência considerável. Naquele tempo, parecia apenas uma boa maneira de conhecer gente.

Como sempre tive interesses um tanto díspares, eu encontrava meus possíveis correspondentes nos lugares mais diferentes. Podia ser numa revista de rock ou numa revista da mocidade cristã. Nunca vi grande contradição nisso.

Aliás, continuo assim.

Hoje são os algoritmos dos aplicativos de música que sofrem comigo. Uma hora estou ouvindo uma banda de rock; pouco depois, um hino antigo. O programa tenta descobrir meu gosto musical, faz seus cálculos, cruza informações e, no fim, desiste. Meus favoritos são um problema teológico para a inteligência artificial.

Para quem não passou por aquela época, deixe-me explicar. A gente abria a revista, examinava os nomes, lia os interesses e escolhia alguém para quem escrever. Mas também podia fazer o caminho inverso: publicar o próprio anúncio e esperar para ver quem apareceria do outro lado do envelope.

Às vezes, o interesse era por causa da banda preferida. Em outras, uma frase chamava a atenção. Talvez fosse pela cidade onde a pessoa morava. Não era preciso muito.

Então escrevíamos.

E mandávamos a carta.

Depois vinha a espera.

A graça está justamente aí. Não havia dois risquinhos azuis anunciando que alguém recebera a mensagem. Muito menos aquele impiedoso “visualizado às 14h37”. A carta simplesmente desaparecia dentro de uma caixa dos Correios e seguia seu caminho pelo mundo.

Restava esperar.

Hoje uma mensagem atravessa o mundo antes que a gente termine de guardar o telefone no bolso. No entanto, se a pessoa demora alguns minutos para responder, já começamos a imaginar problemas.

Ganhamos velocidade.

Não sei se ganhamos paciência.

Era curioso receber uma carta de alguém que nunca tínhamos visto. Primeiro conhecíamos a pessoa pela letra. Depois pelas histórias. Havia letras pequenas e cuidadosas, outras apressadas, outras quase indecifráveis. Aos poucos, aquele desconhecido ganhava uma família, uma escola, uma igreja, uma banda preferida, alguns problemas e meia dúzia de sonhos.

Assim conheci muita gente.

Durante algum tempo, algumas dessas pessoas fizeram parte dos meus dias sem jamais terem entrado em minha casa.

Hoje eu gostaria de abrir uma daquelas cartas.

Não por causa de alguma grande revelação. Justamente pelo contrário.

Gostaria de encontrar uma conversa banal, uma história esquecida, o nome de uma banda, alguma notícia que naquele tempo parecia importante e hoje já não significa nada.

O tempo tem essa estranha habilidade de escolher por nós aquilo que será precioso.

Uma lembrança da infância. Uma história que nossos pais repetiam. Uma receita da avó. O nome de um amigo que a vida levou para longe. Uma conversa aparentemente sem importância.

Nunca sabemos qual pedaço comum dos nossos dias acabará transformado em saudade.

Esse é um dos pequenos encantamentos das palavras.

Temo que alguma coisa disso tenha desaparecido.

Não as palavras. Nunca escrevemos tanto.

Mas aquele intervalo entre escrever e receber, entre perguntar e saber, entre sentir saudade e ouvir novamente a voz de alguém.

A carta demorava.

Por isso chegava tão longe.

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