Cada um presenteia com o que tem

Isaías Lobão
Cada um presenteia com o que tem

Na cidade portuária de Kesed, ao sul de Elídria, em Demústia — a terra dos povos livres — viviam Naíra e Izevel. Desde pequenas, eram inseparáveis. Nasceram quase juntas, com apenas um dia separando seus aniversários — como se até nisso fossem destinadas a caminhar lado a lado.

Naíra, de olhos atentos e sorriso sereno, era sábia e ponderada. Izevel, vibrante como o vento da primavera, encantava a todos com sua voz firme e seu entusiasmo contagiante. Cresceram lado a lado, partilhando pão, segredos — e até o primeiro vestido novo que uma delas ganhou. Eram belas, inteligentes e inseparáveis. Costumava-se dizer que, onde uma pisava, a outra já havia deixado pegadas.

Quando chegou o tempo das decisões, tomaram rumos diferentes — mas os laços ainda pareciam fortes.

As duas se casaram com homens honrados — Naíra com Eliab, um artesão de móveis, silencioso como as montanhas; Izevel com Baruc, um comerciante de grãos, rápido nas palavras e ainda mais rápido nos negócios.

Um desentendimento tolo — talvez uma palavra atravessada, ou um véu emprestado que nunca foi devolvido — ergueu um muro entre elas. Com o passar dos anos, a amizade, antes viva como o riso da infância, ficou esquecida do outro lado. Havia raiva, havia rancor — mas, acima de tudo, havia orgulho. E o orgulho, como todo pedreiro habilidoso do coração, ergue muros altos sem fazer barulho.

Certo dia, ao se aproximar seu aniversário, Naíra preparou uma grande festa simples. Dias antes, um presente chegou em sua porta.

Era uma caixa discreta, com uma fita de linho e um laço sóbrio. Sem bilhete. Não havia nome, mas a caligrafia do embrulho era inconfundível.

Dentro, um livro raro de provérbios antigos, cuidadosamente restaurado. Eliab sorriu ao ver o volume.

— Foi Baruc — disse ele. — Conhece meu gosto por livros. Deve ter mandado antes que Izevel soubesse. Por amizade. Naíra assentiu, com doçura.

No dia seguinte, outro presente chegou. Agora em uma carruagem reluzente, puxada por um burro adornado com laços de cetim. Era uma caixa deslumbrante: feita de nogueira libanesa, com dobradiças de bronze polido e revestida por dentro com seda escarlate. No topo, uma rosa de vidro tingido.

Ao abrir, Naíra recuou.

Dentro... um amontoado de vísceras secas de galinha, trapos sujos, cascas de cebola podre e uma pequena bolsa de couro com fezes de bode, envoltas num perfume barato que tentava, em vão, disfarçar o odor pútrido.

Não havia bilhete. Apenas o cheiro — inesquecível.

Eliab enrubesceu. Mas Naíra, com um brilho nos olhos que só os mansos têm, disse:

— Há presentes que falam mais que cartas.

No dia seguinte, era o aniversário de Izevel.

Naíra preparou uma nova caixa. Ainda maior. Feita com madeira clara das planícies de Ashantoria, entalhada com folhas de tamareira. Por dentro, forrada com linho perfumado. Dispunha sachês de jasmim, tâmaras açucaradas, flores frescas do seu próprio jardim e uma pequena tapeçaria tecida à mão.

No topo, repousava um único bilhete:

Cada um presenteia com o que tem.

Moral da história

Há quem dê ouro e traga ruína. Há quem ofereça flores e plante paz. As mãos só ofertam o que a alma cultiva.

Prezados leitores, não há nada mais revelador do que um presente. Um objeto ofertado traz consigo não apenas seu peso material, mas a gravidade — ou a leveza — do coração que o escolheu. Assim, quando alguém oferece ouro e colhe ruína, o metal em si pouco diz: é o orgulho escondido na dádiva que corrompe a amizade, tal qual um veneno em cálice de prata. Em contraste, outro estende flores e, com elas, semeia paz; não porque pétalas possuam virtude mágica, mas porque a fragrância nasce primeiro na alma de quem as colheu.

Esta história recorda o princípio eterno de que “a boca fala do que está cheio o coração” — e, ousaria acrescentar, as mãos também dão do que o coração transborda. É um lembrete de que não podemos oferecer ao próximo o que não possuímos em nosso íntimo. Se nutrimos vaidade, a vaidade virá embrulhada em seda. Se cultivamos caridade, até o gesto mais simples se tornará sacramento.

Por fim, a colheita é inevitável. Não se trata de mera lei moral abstrata, mas de uma operação concreta do universo: semeamos na alma alheia e, cedo ou tarde, comemos dos frutos que brotam dessa semeadura.

É por isso que as Escrituras unem indissoluvelmente dar e receber. A ruína que acompanha o presente envenenado é apenas a flor amarga do ego; a paz que acompanha o buquê sincero é o perfume duradouro da graça.

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