Como começou minha caminhada na pesquisa
Há sonhos que nascem cedo e, mesmo quando parecem distantes, continuam silenciosamente nos acompanhando.
Um deles sempre esteve comigo: o desejo de me tornar pesquisador. Eu queria escrever artigos, publicar livros, contribuir com ideias. Deixar algo que fosse fruto de um trabalho sério, dedicado, intelectual.
Escrevo este texto para compartilhar um pouco dessa caminhada. E, quem sabe, encorajar você que também sente esse chamado. Ainda que a pesquisa, por vezes, pareça um caminho solitário.
Durante minha graduação na Universidade de Brasília, vivi um entusiasmo intenso. Por um tempo, cheguei até a desprezar a licenciatura. Meu foco estava totalmente voltado para a pesquisa. Eu queria seguir por esse caminho com todas as forças.
Mas a realidade, como um bom mestre, nos ensina com clareza. Logo percebi que viver exclusivamente de pesquisa em História no Brasil era extremamente difícil, para não dizer improvável.
Foi nesse momento que ouvi conselhos que mudaram minha trajetória. Minha esposa, com sabedoria e sensatez, e meu orientador, com experiência e visão, me ajudaram a enxergar um caminho mais sólido. Decidi, então, seguir a carreira docente.
E hoje posso dizer com tranquilidade: não me arrependo.
Houve momentos de incerteza, fases de instabilidade, períodos em que nem tudo estava claro. Mas uma coisa permaneceu constante: sempre houve uma sala de aula.
Seja na igreja, em seminários teológicos, em faculdades ou em escolas, o ensino esteve presente. Como os trilhos de uma ferrovia, a docência me conduziu adiante Mesmo quando eu não sabia exatamente para onde estava indo.
E foi justamente nesse caminho que a pesquisa não morreu. Pelo contrário: encontrou espaço, amadureceu e passou a caminhar lado a lado com o ensino.
Mesmo enquanto ensinava, seguia investigando, escrevendo e participando de grupos de pesquisa. A docência não substituiu a pesquisa. Pelo contrário, deu-lhe sustentação.
Um dos espaços mais importantes dessa caminhada foi o Projeto de Estudos Judaicos-Helenísticos (PEJ), coordenado pelo Dr. Vicente Dobroruka. Estou vinculado ao grupo há mais de vinte anos. Nesse ambiente, tive a oportunidade de participar de eventos acadêmicos, apresentar comunicações e desenvolver pesquisas, especialmente na área da literatura apocalíptica.
Foi um período marcado por amadurecimento intelectual e construção paciente. Hoje, tenho a honra de servir como vice-líder do grupo, uma responsabilidade que recebo com gratidão.
Nesse mesmo caminho, desenvolvi minha dissertação de mestrado na Faculdade EST. Escolhi um tema que reunia áreas que sempre me fascinaram: escatologia, teologia histórica e exegese bíblica. Trabalhei o discurso profético de Jesus no Monte das Oliveiras, conforme registrado em Marcos 13.
O título foi “Não ficará pedra sobre pedra: o discurso de Jesus no Monte das Oliveiras, conforme o evangelho de Marcos”.
Mais tarde, esse trabalho ganhou uma nova vida ao ser publicado como e-book pela editora Monergismo, tornando-se acessível a um público mais amplo. Fico feliz e satisfeito em ver anos de estudo alcançando outras pessoas.
Com o tempo, novos caminhos foram se abrindo.
Passei a integrar também o GP-GIM (Gestão, Inovação e Mercados), do Instituto Federal de Goiás, coordenado pelo Dr. Adriano Paranaíba. Nesse grupo, desenvolvo pesquisas em economia política sob a perspectiva da Escola Austríaca de Economia, bem como em empreendedorismo e negócios. São áreas que dialogam diretamente com minha atuação no Instituto Federal do Tocantins.
Além disso, participo de um terceiro grupo de pesquisa, o Middle Persian Studies (MPS). Minha integração a esse grupo aconteceu de forma bastante natural, como desdobramento direto da minha pesquisa de doutorado na Universitat de València.
Na tese, investiguei o impacto das conquistas de Alexandre, o Grande, sobre a comunidade judaica e os desdobramentos literários desse encontro. O trabalho recebeu o seguinte título, “A formação de uma tradição: a recepção criativa do Romance de Alexandre na literatura judaica no período do Segundo Templo”.
Ao olhar para trás, percebo algo importante, a pesquisa não aconteceu de forma linear, nem imediata. Ela foi sendo construída ao longo do tempo, em diferentes espaços, por meio de oportunidades que surgiram e de outras que precisei aprender a enxergar. E talvez seja exatamente assim que ela acontece para a maioria de nós.
Por isso, é importante lembrar que a caminhada acadêmica não é feita apenas de grandes conquistas, mas de passos silenciosos, escolhas difíceis e perseverança diária. Nem sempre temos clareza do caminho, mas seguimos, aprendendo, ajustando e, muitas vezes, recomeçando.
Se há algo que aprendi, é que não precisamos esperar o cenário ideal para começar. A pesquisa pode nascer onde estamos, com os recursos que temos, desde que haja disposição para estudar, disciplina para continuar e humildade para aprender.
Talvez você que está lendo este texto tenha esse mesmo desejo, mas ainda não encontrou o momento certo. Minha experiência me ensinou que o momento não se apresenta pronto. Ele é construído.
Por isso, se há um chamado em seu coração, comece. Dê o primeiro passo. Busque orientação, envolva-se, escreva, participe. Com o tempo, você perceberá que aquilo que parecia distante começa a tomar forma.
A pesquisa, no fim, não é apenas sobre produzir conhecimento. É também sobre ser moldado no processo. E, quando olhamos para trás, percebemos que cada passo, por menor que tenha sido, deixou seus rastros na caminhada.