Gosto das árvores tortas do Cerrado.
Elas não demonstraram qualquer preocupação em causar boa impressão. Crescem como podem. Um galho vai para um lado, outro muda de ideia no meio do caminho, o tronco se inclina para conversar com o vento. Algumas têm a casca grossa, marcada, quase áspera demais para uma árvore que, meses depois, estará coberta de flores.
Há certa elegância nisso.
A gente se acostumou a achar bonito o que é reto, simétrico, bem aparado. O Cerrado parece discordar. Aqui, Deus trabalhou bastante com curvas.
E trabalhou também debaixo da terra. Muitas dessas árvores que parecem tão sofridas na superfície têm raízes que descem profundamente em busca de água. Por isso permanecem ali durante a seca, quando o chão fica duro, a poeira vermelha sobe e tudo parece pedir chuva. O que vemos é o galho ressequido. O que não vemos continua procurando água.
Há uma lição aí, suponho. Mas não vou estragá-la explicando.
E, se começarmos a falar das frutas, prepare-se. Tem araticum, baru, buriti, cagaita, mangaba, jatobá, murici, gabiroba e maracujá-do-campo.
É uma lista diferente. Até engraçada.
Aliás, tenho quase certeza de que você não conseguiu chegar ao fim dela sem sorrir pelo menos uma vez. Há nomes que parecem ter sido inventados apenas para dar gosto de pronunciá-los. Gabiroba. Murici. Cagaita.
Experimente dizer os três em voz alta e continuar muito sério.
O Cerrado começa a ser interessante antes mesmo de a gente provar seus frutos.
Tem, por exemplo, o cajuzinho-do-cerrado.
Você já reparou que tudo o que recebe diminutivo em português parece ganhar um pouco de carinho?
Caju é uma fruta. Cajuzinho já é quase da família.
O -inho é um sufixo mágico. Diminui a palavra e aumenta o afeto. Temos casa e casinha, filho e filhinho, café e cafezinho. Ninguém oferece a um amigo, depois do almoço, um “café”. Oferece um cafezinho. Parece até que o gosto melhora.
O cajuzinho faz jus ao nome. Fica meio escondido na vegetação, pequeno, cheiroso, como se o Cerrado tivesse guardado algumas de suas melhores coisas para quem se dispõe a procurar. É uma planta modesta até no tamanho, mas por baixo do chão possui estruturas que armazenam reservas e lhe permitem resistir e rebrotar.
Tem também o araticum.
Esse parece uma fruta inventada por alguém que não estava preocupado com a aparência. A casca é irregular, cheia de desenhos e saliências, como se tivesse sido montada pedaço por pedaço. Mas basta abrir para descobrir uma polpa macia, doce e perfumada.
É outra mania do Cerrado. Ele esconde delicadezas dentro de coisas de aparência bruta.
Por isso é que eu gosto tanto dele.
Nem tudo o que é bom precisa parecer bonito à primeira vista.
E ainda temos a cagaita.
Comecemos pelo nome, que certamente não ajudaria muito numa campanha de publicidade.
Pobre fruta.
É pequena, amarelada, suculenta e de casca tão delicada que precisa ser colhida com certo cuidado. Quando amadurece, parece guardar mais suco do que seria razoável para uma fruta daquele tamanho.
O nome pode provocar risadas, sobretudo entre os meninos. Mas Deus, pelo visto, nunca teve os mesmos problemas que nós temos com nomes. Fez a fruta saborosa e deixou que os homens resolvessem o resto.
Há também o baru.
O baru exige paciência.
Por fora, é duro. Muito duro. Dentro está a amêndoa.
É preciso quebrar alguma coisa para chegar ao que interessa.
Por isso não alcançou a fama da castanha-de-caju ou da castanha-do-pará. O baru não facilita a vida de ninguém. Não se entrega assim, de primeira.
Mas há coisas na criação que parecem ter sido feitas para gente paciente.
A mangaba é diferente.
Macia quando madura, cheirosa, de sabor que mistura doçura com um pouco de acidez, parece dessas frutas que não foram feitas para durar muito tempo sobre uma mesa. É preciso colhê-la, comê-la, fazer doce, suco ou sorvete.
Há frutos que parecem conhecer a brevidade melhor do que nós. Amadurecem, oferecem o que têm e logo passam.
Por isso são tão bons.
E há o buriti.
Esse merece uma pausa.
Quem já viu um conjunto de buritis ao longe sabe que eles anunciam alguma coisa. Geralmente água.
No meio da paisagem mais seca, surgem altos, quase solenes, acompanhando veredas e baixadas úmidas. É como se levantassem os braços sobre o Cerrado para avisar ao viajante que ali a terra guarda água.
E então produzem aqueles frutos cobertos de pequenas escamas, marrons por fora, alaranjados por dentro.
O Cerrado tem dessas contradições.
Onde parecia haver apenas seca, há água.
Onde parecia haver apenas casca, há polpa.
Onde parecia haver apenas espinho, de repente aparece flor.
A criação é harmoniosa justamente porque Deus nunca teve necessidade de fazer tudo igual.
E há o pequi. Esse eu não poderia esquecer.
Gosto dele. Gosto mesmo.
Amarelinho por dentro, verde por fora, carnudo, cheiroso e dono de uma personalidade que não admite neutralidade.
Pequi não conhece meio-termo.
Quem gosta, gosta “de cum força”, como dizem os goianos. Come com arroz, com frango, puro, em conserva, e ainda acha pouco. Quem não gosta desconfia até da panela em que ele foi cozido.
Tenho a impressão de que algumas amizades no Centro-Oeste já devem ter sido testadas por causa de pequi.
E então chegam os ipês.
Eles têm o péssimo hábito de aparecer justamente quando a paisagem parece ter desistido das cores.
Passam meses quase despercebidos. Depois perdem as folhas e, em plena seca, quando o capim está amarelado e a poeira parece ter tomado conta de tudo, florescem. É curioso: a árvore se despe para ficar mais bonita. Sem folhas, as flores aparecem ainda mais, chamando abelhas, pássaros e os nossos olhos distraídos.
O amarelo é o mais famoso, claro. Tem árvore que parece ter roubado um pedaço do sol.
Mas há os roxos, os rosados, os brancos. Em alguns lugares, quando florescem perto uns dos outros, o Cerrado perde por alguns dias sua fama de paisagem severa e vira festa.
As crianças querem brincar debaixo deles. Os adultos tiram fotografias. E os namorados, suponho, continuam fazendo o que namorados sempre fizeram desde que o mundo é mundo. Ficam procurando uma flor bonita e fingindo que foram eles que tiveram a ideia.
E depois de tudo isso veio a soja.
Veio depois mesmo. Muito depois.
Não estava entre o pequi, o baru e as gabirobas quando o Cerrado aprendeu a conviver com a seca. Foi trazida por nós.
Chegou bem mais tarde, trazida pelas mãos dos homens, pelas máquinas, pela ciência e por uma quantidade considerável de teimosia. Durante muito tempo houve quem dissesse que ela não vingaria por essas bandas. O solo parecia inadequado, o clima impunha dificuldades, e o Cerrado tinha fama de terra bonita para olhar e ruim para plantar.
O homem, porém, também faz parte da criação e recebeu esse estranho costume de não se conformar facilmente.
Hoje a soja cresce a perder de vista. Em certos lugares, forma uma espécie de mar verde, desses que o vento atravessa fazendo ondas. Não tem a tortuosidade das árvores nativas nem o perfume do cajuzinho. Tem outra beleza: a beleza das fileiras, do trabalho, da espera pela chuva, da semente lançada na terra com aquela mistura de cálculo e esperança que todo agricultor conhece.
Eu me impressiono com o Cerrado.
Nada nele parece combinar e, no entanto, tudo combina.
A árvore retorcida e a flor delicada. A casca grossa e o fruto doce. A estação seca e o ipê florido. O pequizeiro nativo e, alguns quilômetros adiante, a lavoura desenhada em linhas quase perfeitas. O vermelho da terra, o azul exagerado do céu e aquele verde que retorna depressa quando chegam as primeiras chuvas.
Nós talvez tivéssemos feito diferente.
Provavelmente alinharíamos melhor as árvores. Distribuiríamos as cores com mais método. Talvez escolhêssemos uma só tonalidade de flor para não exagerar. E, certamente, faríamos alguma coisa a respeito daqueles troncos tortos.
Ainda bem que a criação não foi entregue ao nosso departamento de planejamento.
Deus deu uma harmonia diferente da nossa.
Não a harmonia em que tudo é igual, mas aquela em que coisas muito diferentes encontram lugar. O fruto pequeno entre folhas ásperas. A raiz escondida sustentando o galho. A chuva chegando depois da poeira. A flor surgindo justamente quando a árvore parecia mais pobre.
Às vezes caminho por essas bandas e paro diante de um ipê.
Não faço nenhuma reflexão particularmente profunda. Já passei da idade de acreditar que precisamos ter pensamentos profundos o tempo inteiro.
Olho apenas.
O vento passa pelos galhos.
Algumas flores caem devagar sobre a terra vermelha.
Mais adiante, uma árvore torta continua inclinada, como esteve ontem e provavelmente estará amanhã.
E me ocorre que Deus deve gostar dessas coisas.
Não fez tudo reto.
Fez tudo caber.
