Rastros do LoboEducaçãoCrônicas

Mágicos sem cartola

Isaías Lobão
Mágicos sem cartola

Para muitos povos antigos, havia algo de mágico nas palavras escritas. Não estou falando de abracadabra, hocus pocus, sim-salabim e outras expressões associadas aos truques de mágica. Era outra coisa.

Para eles, a palavra escrita carregava certo mistério.

Hoje passamos diante de placas, mensagens, legendas, cardápios, boletos e avisos de condomínio sem pensar muito no assunto.

Lemos até aquilo que preferiríamos não ter lido.

Mas houve um tempo em que decifrar aqueles pequenos sinais gravados numa pedra, numa tábua ou num pedaço de pergaminho era privilégio de poucos.

Escribas, sacerdotes, comerciantes, funcionários do governo e alguns reis dominavam aquela arte. Para o restante das pessoas, devia ser extraordinário contemplar alguém capaz de olhar para uma sequência de riscos e dizer:

— Aqui está escrito isto.

Convenhamos, parece mesmo um pequeno milagre.

Os linguistas nos lembram que falar é uma capacidade humana que adquirimos naturalmente. Uma criança cresce ouvindo vozes ao redor e, se nada impedir esse processo, começa a falar. Primeiro uma palavra, depois outra, e logo descobre que pode perguntar “por quê?” centenas de vezes no mesmo dia.

A leitura e a escrita são diferentes.

Ninguém aprende a ler apenas porque passou alguns anos cercado de livros.

Podemos colocar uma criança diante de uma estante maravilhosa, cheia de capas coloridas, dragões, princesas, planetas, dinossauros e histórias fabulosas. Se ninguém lhe ensinar o segredo daqueles sinais, os livros permanecerão diante dela como mapas de terras desconhecidas.

Alguém precisa mostrar o caminho. E esse é o papel dos professores.

Ainda hoje, para uma criança que não sabe ler, as palavras escritas guardam um pouco daquele antigo mistério. Ela reconhece as figuras, distingue as cores e até inventa histórias olhando as páginas de um livro. Mas aqueles pequenos sinais continuam indecifráveis.

Até que aparece uma professora.

Não traz cartola, varinha ou uma carta escondida na manga. Geralmente carrega uma bolsa cheia de papéis, alguns lápis, um livro de chamada e uma paciência que nem sempre chega intacta ao fim do expediente.

Então começa o espetáculo.

Primeiro, uma letra. Depois, outra. As duas se encontram, formam uma sílaba e, quando menos se espera, surge uma palavra. A criança descobre que aqueles sinais têm sons, que os sons formam frases e que as frases contam histórias. De repente, o mundo ficou maior.

E pensar que tudo começou com alguém ensinando a diferença entre um A e um B.

Outros professores aparecem ao longo da vida, cada qual com seus próprios truques. O de Ciências revela criaturas invisíveis numa gota d'água e explica por que vivemos numa enorme esfera que gira pelo espaço sem que ninguém precise segurar os móveis. O de Geografia nos leva a lugares onde nunca estivemos, atravessando desertos, montanhas e oceanos sem sair da carteira. O de Matemática encontra soluções em meio a uma confusão de números que, para os menos iniciados, parece um caso perdido.

O de História, por sua vez, conversa com gente que morreu há séculos. Apresenta reis, acompanha revoluções, atravessa oceanos em antigas caravelas e visita cidades que desapareceram do mapa. Tudo isso sem sair da sala de aula.

É verdade que nem sempre o espetáculo conquista a plateia. Há alunos que conversam durante a apresentação, outros que olham para o relógio e alguns que conseguem dormir até durante a queda do Império Romano.

Mas o professor continua. Repete a explicação, procura outro exemplo, desenha no quadro e tenta mais uma vez. Afinal, até os mágicos precisam ensaiar seus truques.

Lembro-me do professor Geraldo, que ensinava Matemática no Colégio Hugo de Carvalho Ramos, onde estudei no início dos anos 1990. Era daqueles professores que não se limitavam a explicar a matéria. Interessava-se pelos alunos, conversava com eles e parecia compreender que havia vida para além dos números escritos no quadro.

Certa vez, numa dessas conversas que surgem sem compromisso e acabam ficando guardadas na memória, contou-me que havia feito um curso de Administração Hospitalar.

Aquilo me surpreendeu.

Na minha cabeça de adolescente, Matemática era Matemática, Administração era Administração e hospital era lugar de médicos e enfermeiros. Não me ocorria que o conhecimento pudesse atravessar essas fronteiras e encontrar aplicações tão diferentes. Descobri, naquela conversa, que até os hospitais precisavam de administradores e que havia muito mais maneiras de organizar o mundo do que eu imaginava.

Mas havia outra coisa que me impressionava. O professor Geraldo continuava estudando. Não parecia satisfeito em permanecer apenas no território que já conhecia. Tinha aquela inquietação de quem suspeita que existe sempre alguma coisa interessante depois da próxima página.

Ele talvez nem se lembre daquela conversa. Para ele, deve ter sido apenas um comentário feito a um aluno curioso. Para mim, foi uma pequena descoberta.

Naquele dia, não aprendi nenhuma fórmula. Aprendi que o conhecimento não termina quando acaba a aula e que um professor também pode continuar sendo aluno.

Pensando agora, tantos anos depois, percebo que aquele foi um de seus melhores truques. E ele nem precisou chegar perto do quadro.

Há, porém, uma diferença curiosa entre esses mágicos e os profissionais da cartola. Os mágicos comuns guardam seus segredos a sete chaves. Não seria muito interessante assistir a um espetáculo em que o artista explicasse, antes de cada número, onde escondeu a carta ou como descobriu o segredo anotado no papel.

Os professores fazem justamente o contrário. Passam a vida revelando seus truques.

Mostram como as letras se juntam, de onde vêm os números, por que as estrelas brilham e como os povos antigos construíram suas cidades. Explicam uma vez, duas, três. Às vezes, tantas vezes que chegam a desconfiar de que estão falando sozinhos.

Até que, num dia qualquer, acontece.

O aluno compreende. Resolve o problema sem ajuda, descobre a resposta ou faz uma pergunta que o próprio professor ainda não havia considerado.

E o mais curioso é que, nesse momento, o mágico começa a se tornar desnecessário. Pelo menos naquele pequeno assunto. O aluno já consegue caminhar sozinho.

Esta é a beleza de ensinar. Os professores não trabalham para conservar seus segredos, mas para entregá-los. E, se fizerem bem seu trabalho, verão seus alunos descobrir coisas que eles próprios jamais conheceram.

Hoje é Dia dos Professores. Penso naqueles que me ensinaram a ler, a escrever e a compreender um pouco melhor este mundo tão complicado. Alguns já partiram, outros estão longe. De muitos, perdi o contato. Mas ainda encontro vestígios de seus antigos truques nas coisas que faço todos os dias.

Não sei por que, entre tantos professores que passaram pela minha vida, hoje me lembrei justamente do professor Geraldo e daquela conversa sobre Administração Hospitalar. A memória tem dessas coisas. Guarda acontecimentos que julgamos importantes e, de repente, nos devolve uma conversa que parecia não ter importância alguma.

Mais de trinta anos se passaram. Não sei quantas equações resolvi em suas aulas, nem quantas fórmulas esqueci desde então. Mas ainda me lembro de sua curiosidade e daquela descoberta de que o conhecimento podia nos levar muito além dos caminhos conhecidos.

Hoje também sou professor. E, curiosamente, costumo fazer alguns truques de mágica para meus alunos. Nada muito extraordinário, devo confessar. Não faço ninguém desaparecer, o que, dependendo da turma, talvez fosse uma habilidade bastante útil. São pequenos truques, apenas para despertar a curiosidade e arrancar alguns sorrisos.

Mas às vezes me pergunto se não terei feito alguma outra mágica sem perceber. Uma conversa depois da aula, uma explicação improvisada ou um comentário qualquer tenha despertado em algum aluno a vontade de seguir um caminho que antes desconhecia. Como aconteceu comigo naquela conversa com o professor Geraldo.

Alguns de meus antigos alunos foram muito além do que eu poderia imaginar. Tenho ex-alunos que já haviam publicado dez livros quando eu ainda não tinha publicado o primeiro. Outros se tornaram meus colegas de profissão e hoje ensinam, com uma facilidade que me impressiona, disciplinas que continuam sendo um grande desafio para mim.

E isso me alegra.

Há uma satisfação especial em descobrir que nossos alunos chegaram a lugares onde ainda não conseguimos chegar. Afinal, um professor não deveria desejar que seus alunos permanecessem para sempre sentados diante dele, esperando a próxima explicação.

Os melhores truques são aqueles que realizamos sem saber. Não aparecem no planejamento das aulas, nem provocam aplausos. Às vezes, só descobrimos que aconteceram muitos anos depois.

Compartilhe esta Reflexão:

CC

Todo o conteúdo desta publicação é distribuído sob os termos da Licença Creative Commons Atribuição 4.0 (CC-BY 4.0). Isso significa que qualquer pessoa pode copiar, distribuir, modificar, adaptar, remixar e criar obras derivadas deste material, inclusive para uso comercial, desde que o autor original seja devidamente creditado e que eventuais alterações sejam indicadas.